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sábado, 10 de maio de 2014

Referença à enquete

Boa tarde,

Estou escrevendo esta carta porque lembrei que eu tinha feito uma pequena enquete sobre a padronização de algumas terminações de palavras. Especificamente, eu estava me referindo àquelas palavras terminadas em -ância e -ência, em comparação às terminações -ança e -ença. Todas essas derivam do latim -ANTIA e -ENTIA. A enquete teve apenas uma resposta, de rejeição à padronização para -ança e -ença. Peço que me permita mostrar alguns pontos sobre isso.
Na língua portuguesa, assim como em várias outras línguas naturais, a forma de algumas palavras vai se modificando ao longo do tempo, enquanto outras ficam mais preservadas. Há ainda um terceiro grupo de palavras que são tardiamente (re)aprendidas ou (re)emprestadas do idioma de origem, como por exemplo o latim. Exemplos de palavras em que a terminação é menos divergente do latim são: cadência, infância, saliência. Já outras sofreram um pouco mais de mudança: mudança, doença, confiança.
Hoje as formas antigas e modernas convivem nos dicionários e acabamos aprendendo qual a terminação coreta para cada uma delas, decorando mesmo, pois não há uma razão óbvia ou aparentemente lógica para terem a forma mais ou menos preservada. Do ponto de vista de um estrangeiro aprendendo o idioma, deve ser confuso poder escrever confiança, mas não poder escrever infança... Você mesmo pode fazer este exercício ao se perguntar: tendência ou tendença? diferência ou diferença? presência ou presença? importância ou importança? Bonância ou bonança? Ou boança?
Considerando que línguas próximas ao português chegaram a seus próprios resultados (espanhol -ncia, francês -nce, italiano -nza), eu sugeriria a padronização das terminações portuguesas em -nça. Ela tornaria o idioma um pouco mais fácil e mais identificável. Assim, além de mudança, doença e confiança, teríamos caença, infança e saiença, entre outras tantas. Pode ser difícil de se acostumar à primeira vista, mas é só uma questão de paciença.
Bem, foi para discutir essa ideia que eu propus a enquete. Minha esperança (ou seria esperância?) é que ela tenha produzido ao menos uma reflexão sobre as consistenças ou inconsistências do idioma.

Cordialmente,

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Imprecisão ou redundância?

Oi!

Passei por um período difícil na faculdade, por todos os trabalhos de final de curso, etc. Por isso não pude manter as postagens em dia; mas, estou pensando em retomar o andamento deste blog com posts mais curtos, que não me exijam muito, mas ainda sim sejam interssantes para o público.

Durante o tempo de produção do TCC, fui corrigido por meu orientador várias vezes quando eu escrevia o pronome 'ele, ela' pra começar uma frase em que o assunto/sujeito ainda era o mesmo da frase de antes (ele me mandava trocar o 'ele' pelo sobrenome do autor). Será que esses pronomes estão ficando cada vez mais vazios? Será que algumas variantes da língua portuguesa (meu orientador é de São Paulo) estão cada vez exigindo mais o preenchimento de informação na frase? Pode ser que isso esteja acontecendo por causa do uso de 'ele, ela' depois do sujeito, fazendo uma separação entre "tópico" e "comentário":

- Frase simples (ou "imprecisa"?):
O menino foi buscar o cachorrinho no vizinho.

- Frase com mais preenchimento (ou "redundante"?):
O menino, ele foi buscar seu cachorrinho na casa de seu vizinho.

Até onde sei, esse uso do 'ele' nem é aceito na língua formal portuguesa. Nem existe um sinal de pontuação regulamentado, sendo usada aqui a vírgula em improviso. Pra mim, o grau de precisão parece ser diferente entre os vários sotaques pelo Brasil, podendo também estar ligado à vontade/capacidade do leitor de deduzir/pensar.
Bem, foi isso que eu pensei. Fica então aquela dúvida: mais redundância ou mais imprecisão? Nenhuma das duas tem uma conotação muito positiva...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pra que lado é o acento?

Oi,

Recebi um anúncio na caixinha do correio sobre uma nova lanchonete no bairro. O horário de atendimento estava escrito "das 18:30h ás 00:45h". Mas, espera um pouco. O acento não era pro outro lado? Pois é, como já falei no post Pra que acentuar? - Parte 2, a norma da língua portuguesa prescreve o emprego do acento grave nos casos de crase. Pra quem não lembra, vamos revisar:

A crase é a fusão de dois sons iguais de vogal seguidos. Não é o nome do acento.
Basicamente, acontece quando a preposição a se funde com a vogal a fraca, no início de aquilo, aquele, aquela, ou noutra palavra a que representa o artigo ou pronome relacionado com o gênero feminino (no Wikipédia e no dicionário Michaelis você pode achar mais informações sobre esse processo e em que casos o acento grave deve ser usado).
Em vários lugares, já vi placas, anúncios em estabelecimentos comerciais, sites e outros meios de escrita onde o acento grave não foi usado onde deveria, ou foi usado onde não precisava. Já vi tanto o uso do acento grave quanto do acento agudo nesse casos. Não só vi como tirei algumas fotos e fiz alguns recortes pra mostrar aqui.







Além da norma, eu gostaria de levantar alguns pontos aqui:
 
1. Nós temos o artigo a e a preposição a.
Na escrita e no som pode ser a mesma coisa, mas elas têm significados diferentes. A preposição pode ter sentido de "para, em (direção a), de, com, até". Tanto é que, na fala dos brasileiros, costumamos substituir essa preposição por outra mais clara sempre que possível. Veja os seguintes exemplos:

Vou à praia. -> Vou na praia.
Ao teu lado. -> Do teu lado.
Dá um passo à frente. -> Dá um passo pa frente.
Da quadra de tênis à de basquete. -> Da quadra de tênis até a de basquete.
Estamos à beira da calçada. -> Estamos na beira da calçada.
À tarde. -> De tarde
Peça ajuda aos colegas. -> Peça ajuda pos colegas.
Escreveu tudo a lápis. -> Escreveu tudo com lápis.
(Só pra constar: pa não é aceito na língua escrita, nem a forma pra, que eu estou usando neste post)

Em alguns casos, a falta do acento ou o uso de outra preposição criam ambiguidade:
Vou chegar às duas. -> Vou chegar nas duas. ??
O bebum cheirava (à/a) cachaça. ??
Vamos falar à parte. -> Vamos falar a parte. ??
Vamos jantar à francesa. -> Vamos jantar a francesa ...[ou] na (moda) francesa. ??

Esse pode ser um motivo por que nós estamos ficando cada vez menos familiarizados com a preposição a e sua versão acentuada.
Já em Portugal, pelo que tenho escutado em rádios portuguesas, tenho a impressão bem parcial que eles gostam mais de usar a preposição a (e também o verbo haver) do que nós.
 

2. No francês, a abordagem é interessante. Eles sempre usam o acento grave na preposição, porém para diferenciar de uma forma do verbo haver que acaba ficando a.
Não tem confusão: se é preposição, bota acento. Essa lógica do acento diferenciador já é usada por alguns aqui com a nossa preposição, mas lembre que ela não é aceita na norma da língua portuguesa.
 

3. No Brasil, o acento grave só é usado para a crase do a. Além disso, não existe uma palavra á que poderia entrar em conflito se o acento agudo fosse usado.
Bem, existe uma regra de força das palavras na ortografia portuguesa que propõe a distinção conteúdo/função nas palavras de uma só sílaba. Isso impediria o uso do acento agudo sobre a pois ela ainda é uma palavra de função.

Pra terminar, o que deu pra perceber é que quando escrevemos diferente por ignorância ou quando escolhemos escrever de outro jeito, estamos desrespeitando as normas da língua portuguesa. E é aqui que está o ponto chave dessa história toda: "língua portuguesa".
Enquanto pensarmos nossa língua como "portuguesa", sempre estaremos infringindo as normas (e não tiro a razão), mesmo que nós sejamos quase 200 milhões de falantes nativos e eles cerca de 10 milhões. A língua é deles. Mas quando nós declararmos que a nossa variante é a "língua brasileira" e não "português do Brasil" ou "português (Brasil)", daí vamos ter toda a liberdade de decidir o futuro dela, sem medo de usar uma ortografia mais eficiente pra nós ou aplicar inovações da linguagem popular. Essa independência poderia servir até para preservar a própria língua portuguesa, sem a necessidade de fazer nenhum "acordo ortográfico" (leia minha opinião aqui).

Tenha um bom fim de semana. Em té!

sábado, 20 de abril de 2013

O patinho belo

Boa noite,

Estou começando com uma série aqui pro blog que vai se chamar "O patinho belo". Quem sabe da história do patinho feio? Pois é, na verdade era um cisne, mas sua beleza só foi reconhecida perto dos semelhantes, outros cisnes.
O exercício que eu quero propor é pegar justo um "patinho belo", ou seja, uma palavra que nós consideramos como normal, correta, natural... e colocar do lado de palavras de mesma origem e signicado pelo menos parecido em línguas próximas, como espanhol, italiano, catalão, francês, e até algumas que pegaram também a palavra como empréstimo (mas nunca devolveram rsrsrs). Você vai se surpreender que nossas palavras podem parecer verdadeiras aberrações se comparadas com suas cunhadas noutros idiomas, exatamente como algumas formas populares da nossa língua são vistas quando comparadas com sua própria versão formal ou escrita. Para isso, vou usar principalmente o Online Etymology Dictionary e o Dicionário Michaelis de Português.

Vamos lá então, já! O patinho belo de hoje é BRANCO. É uma cor que combina com tudo, representa a paz, a cor do próprio cisne... Donde será que veio essa palavra tão suave ao ouvido?

Proto-germânico *blangkaz (brilhar, deslumbrar, ofuscar)
Nórdico Antigo blakkr; Inglês Antigo blanca (cavalo branco)
Alto-alemão Antigo blanc, blanch; Alemão blank (reluzente, brilhante)
Franco blank; Francês Antigo blanc (branco, reluzente)
Inglês blank (vazio, em branco)
Espanhol blanco 

Francês, Catalão blanc 
Italiano bianco
 
Você notou que em quase todas as versões, existe um B seguido de L e não de R?
De fato, várias palavras em português sofreram esse tipo de mudança do L pro R depois de consoante. Em alguns casos, línguas irmãs também acabaram tendo a palavra mudada (exemplos de outros patinhos belos do português: bilro, cravar, cumprir, dobra, frasco, obrigado, prata, prazer, rouxinol, soprar).
Parece estranho, mas as palavras acima podem ter sido consideradas feias em alguma época mais antiga, mas hoje são plenamente aceitas na fala e escrita formal, bem diferente do que acontece com palavras populares como probrema (problema), prasco (plástico), brusa (blusa), frexive (flexível), craro (claro), e outras. Esses são alguns dos patinhos feios que encontramos trilhando em fila pelo Brasil afora.
Em alguns sotaques, é difícil separar L de R, pois um compartilha o som com o outro, e os dois compartilham com U também. É interessante notar que, mesmo nos sotaques mais voltados pro R, o L ainda se preserva na posição inicial de palavra ou sílaba, que são menos afetadas por outros sons (ex.: bolo, goleiro, lápis, lua, orla), mostrando que possivelmente a gente ainda vai ter o som do nosso L por muito tempo, mas vai ser menos comum que hoje. Um ponto que pode contrariar essa evidência é outro patinho belo: lírio, e também uma mudança popular: cerular (celular). Sobre L e R em outras posições, vou deixar pra próxima ninhada.

É isso. Se quiser sugerir mais palavras ou mostrar algum ponto diferente, eu apreciaria sua contribuição. Até mais.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A abobra da enquete

Boa tarde,

Eu quase tinha esquecido. O prazo da enquete que coloquei no blog já acabou, e agora é a hora de comentar o resultado. Eu sei que meu blog é novo e ainda não é muito visitado, mas já agradeço aos que se dispuseram a clicar no botãozinho e deixar a opinião.


Todo mundo fez a lição de casa e não clicou em "escrevo abobra", talvez por medo de levar uma reguada na mão do professor de português. Achei até bem conservadoras as respostas, mas tudo bem: abóbora é a forma mais aceita na escrita portuguesa hoje em dia. No diminutivo, é aceito escrever e dizer abobrinha, sem o "o" do meio (processo fonológico que se chama "síncope", como acontece também em chácara - chacrinha). Mas você sabia que a própria forma abobra é também indicada em dicionários? Basta olhar em Michaelis, Dicio.com.br (mesma referência), Lexico.pt, iDicionário Aulete, Babylon.
Aparece nos dois primeiros uma referência do escritor Amadeu de Queirós (ou Queiroz?): "Vamos empaiolar milho e abobra".

O que eu queria trazer pra você é que na situação atual do português, algumas reduções, como a da palavra da enquete, não são muito aceitas na escrita e mesmo na fala mais cuidadosa. Porém, muitas outras palavras que temos hoje como "oficiais" são resultado desse mesmo processo de síncope da vogal do meio. Pense em letra: o adjetivo correspondente é literal. O que aconteceu? Por que elas são um pouco diferentes? Bem, no latim, língua ancestral do português, o substantivo era LITERA (lítera), mas ao longo da história, perdeu o E do meio e depois o I baixou pra E.
Hoje você não sente nenhuma vergonha de falar a palavra "letra", mas quanto a "abobra", shhh, os outros podem pensar que sou jeca ou ignorante.
Então somos todos jecas e ignorantes!, se olharmos pelo ponto de vista da língua formal latina. Daí você pode pensar: quanto mais reduzida a palavra, mais jeca. A língua francesa não seria, portanto, "très chic", mas a mais jeca das línguas românicas. Linguistas, ao contrário, usam o termo "inovadora" para a língua que sofre mais modificações em relação à língua ancestral (no caso do francês, também é o latim). Vamos ver o seguinte exemplo:

Latim: VITA CAPSULA ADMIRATIONIS PLENA EST.
Português: A vida é uma caixinha cheia de surpresas.
Francês: La vie est une petite boîte pleine de surprises.

Pensando bem, o francês tem  algumas palavras mais próximas do latim. Mas não se iluda: na fala, as mudanças são bem mais avançadas. Isso é porque a língua francesa adota um sistema de escrita mais baseado na etimologia das palavras do que na pronúncia, além de outros traços próprios da língua, como a pronúncia da consoante final só se for seguida de vogal.
De um lado, compare LT VITA, PT vida, FR vie. Agora, compare LT PLENA, FR pleine, PT cheia. Se pode dizer que em VITA, o francês é mais inovador, mas em PLENA, o português é mais.

Ok, a gente só se dá conta do que é especial na nossa língua quando começamos a olhar de fora, através da comparação com outros idiomas parecidos, e mais ainda com idiomas bem diferentes.
A partir dessa lógica, vou iniciar a série de posts "O patinho belo", que vai mostrar o quão "feia" uma palavra pode ser se botada ao lado das palavras relacionadas em línguas próximas, como francês, italiano, espanhol, e outras... pra que possamos confrontar um pouco essa ideia da palavra errada.

Té mais em tão.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Yara

Hoje, 22 de março, é o dia mundial da água.

Tirado de: www.grupoescolar.com via Google Images
Esse elemento não pode faltar na nossa vida e, desde muito tempo, é presente na imaginação dos povos. Na mitologia, a água é morada dos seres mais assustadores, como o Kraken dos vikings, ou misteriosos, como as sereias, também conhecidas como sirenes ou ninfas das águas. Entre os tupi no Brasil, as sereias apareceram numa figura individual, chamada Yîara, que quer dizer "senhora das águas" (y "água,rio" + îara "senhor(a)"). Vivia nos lagos cantando uma melodia irresistível aos homens, que, cegados pela beleza dela, eram arrebatados para as profundezas, sem jamais serem vistos novamente.

Bem, o idioma tupi é um poço de onde tiramos à balde muitos nomes de lugares (Ipiranga, Itu, Maceió, Maracanã, Parati, Piauí, Paraná, Tocantins), animais, frutas e plantas (arara, caatinga, capim, capivara, jacaré, maracujá, tatu) e outros (cuia, cupim - no sentido de "costas", guri, mirim, oca, sapeca). Fico imaginando se a gente poderia beber mais um pouco dessa fonte, usando palavras curtas no lugar de algumas grandes, tornando nosso jeito de falar mais único...
 
Mas antes, devo dizer que a grande maioria das línguas indígenas no Brasil usam uma vogal especial, escrita com Y: é pronunciada com os lábios relaxados, como I, só que mais pra trás, próximo a U. Experimente essa pronúncia. Tenho encontrado na internet algumas palavrinhas interessantes:

à - espírito, sombra, fantasma (poderíamos usar no lugar de 'espírito')
Güirá - pássaro
Kaa - floresta, árvore, planta (substituir 'floresta')
Kui - farinha
Nhe - falar (substituir 'língua' como idioma e deixar 'língua' só pra parte do corpo. Já ouviu a expressão "chega de nhenhenhê?")
Jub - Amarelo
Nhu - campo (usar só no sentido de pasto, prado, mas não ramo da ciência)
Piranga - vermelho
Oby - verde/azul (não existia distinção. O verde-azulado ou azul-esverdeado poderia
ter um nome único)
(P/M)itá - Calcanhar
Quá - buraco
Roi (R como em 'arara') - frio (usar como 'inverno' talvez)
Taba - cidade (substituir 'município', cidade média ou pequena, contrastando com
'cidade')
Tin - Nariz, bico, extremidade (será que é por isso que falamos "bico da mesa"?)
Tinga - branco (agora você entende "caatinga"?)
Soó - carne de animal (alterar pra 'zô' e usar como 'animal')
Sy - mãe, origem (como já temos 'mãe', eu proporia de usarmos para substituir a palavra 'natureza')
Ú - comer (usar no lugar de 'comida')
Una - preto
Y - água, rio (substituir 'rio'. Na verdade, foi substituído por I ou U na ortografia portuguesa pois essa vogal não tinha no nosso inventório, mas poderíamos aprender e restaurar muitos nomes de lugares que terminam em Y, como Itajaý, Paraty, Y Piranga)
Ybá - Árvore (poderia ser usada como planta em geral)
Ýby - terra (Poderia ser o nome do planeta, ou 'solo' em geral)
Yru - cesta (menos uma palavra pra confusão 'sesta, sexta, cesta')

Eu escolhi mostrar algumas palavras mais curtas porque a maioria das palavras maiores são um aglomerado de palavras curtas. Pra demonstrar, a expressão "dia da água" pode ser montada como y+ara, assim como fiz no título desse post.
O que você achou disso tudo? Inspirador? Quer me jogar um balde de água fria? Comente.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Palavrachave

Olátodomundo,

Nesses últimos dias eu tive analisando várias palavras do português. Percebi que muitas delas são derivadas não só do latim, mas também do grego, e que, ao olhar num dicionário etimológico, em geral as palavras são originadas de um significado simples, com algum elemento gramatical junto (uma partícula com alguma função na língua original).

Creio que muitos termos complicados e de uso técnico que temos hoje já foram palavras bem simples do dia-a-dia dos gregos (ou ainda são: não conheço a língua grega pra afirmar). O que eu quero dizer por simples é que cada pedacinho da palavra tem um conteúdo ou uma função pra eles, e que nós, quando tomamos emprestada alguma dessas palavras, simplesmente pegamos ela por inteiro, sem saber das partes funcionais que estão vinculadas.

Um exemplo é a palavra "zodíaco". Segundo o Online Etymology Dictionary, ela veio da expressão em grego zodiakos kyklos "ciclo dos animaizinhos", formado por zoion "animal" > zodiaion "animalzinho" > zodiakos "do animalzinho", mais a palavra kyklos "ciclo" (alguns podem ter ficado desapontados com a série Cavaleiros do "do animalzinho"). Agora, compare a relação do final grego -ikos com o nosso pronome "de": mito, mítico (de mito); prática (de praxe "ação, prática"), música (das Musas), pneumático (de vento/sopro), e outros.
Assim, é até possível dizer que quando usamos vocabulário muito técnico ou formal, estamos "falando grego" ou "falando latim", quase escondendo o significado das palavras. Faça o teste: procure saber o que "séptico", essa palavra tão sofisticada e proparoxítona, quer dizer...

Isso tudo tem a ver com o estilo que uma língua adota, ou em termos mais formais (do grego!), sua tipologia. Quanto à formação das palavras e frases (morfologia), uma língua pode ser:
Analítica - Em vez de uma palavra grande, se usa várias palavras curtas separadas, umas representando uma imagem ou ideia, outras especificando o conteúdo ou indicando a função da palavra principal na frase. Em línguas analíticas (também chamadas línguas isolantes), a ordem das palavras na frase é muito importante. Um exemplo é o mandarim. O inglês também está aos poucos se tornando mais analítico, mas a escrita formal costuma não adotar as inovações muito depressa.
Sintética - Informações adicionais sobre o significado primário são coladas na própria palavra, como indicação de gênero, número e caso, ou relação com outra palavra. Nessa categoria, se cada parte tiver uma função única, é chamada língua aglutinante ou aglutinativa, como é o caso do turco, coreano e também do nosso tupi (lembra da cidade Itaquaquecetuba? Quer dizer "ajuntamento de taquaras-faca" ou "lugar onde as facas são feitas de bambu/taquara", pela junção de takûara + kesé "faca" + tyba "ajuntamento").
Se as partes podem ter mais de uma função ao mesmo tempo, a língua é chamada flexiva ou fusional, como é o caso do latim, com todas as declinações em nomes e as conjugações em verbos. Alguns idiomas grudam uma frase inteira numa única palavra: são as línguas polissintéticas, como o groenlandês.
Claro que a grande maioria dos idiomas não são puramente de um tipo ou de outro, e também eles podem mudar ao longo da história. O português está entre as línguas sintéticas, mais pro lado fusional. O grego também.

Quais as vantagens e desvantagens desses tipos?
Vou botar aqui algumas considerações que tenho aprendido:
- As línguas analíticas têm mais palavras, curtas e fáceis de enxergar; as sintéticas têm menos palavras, grandes.
- Nos dois tipos, a fixação da ordem das palavras pode reduzir a quantidade de palavras funcionais.
- No tipo analítico, é exigido mais do raciocínio pra ficar reinterpretando a frase enquanto ela vai sendo formada.
- No tipo sintético, as indicações gramaticais já vão dando uma direção pra linha de pensamento antes da frase terminar.
- Mudanças na pronúncia ao longo do tempo afetam menos as línguas analíticas, mesmo em palavras de função.


Sobre vocabulário, parece haver uma tendência que precisa existir um termo, ou palavra única, pra definir cada coisa. Por isso coloquei o título desse blog junto: palavrachave "consta" aparentemente como um termo novo, que poderia entrar no dicionário ao lado de palavra e de chave. Com o tempo, de tanto usá-la, ela poderia se reduzir a palvachav, depois povachá. Esse aglomero nem é novidade em português (confira no post Vê o meu lado a origem de "freguês").
Por um lado, é bom ter novas palavras curtas que possam ser usadas bastante, mas na maioria das vezes, é só mais um termo pro dicionário ficar mais cheio e pra gente ter que memorizar (uma saída é substituir por uma palavra conhecida: palavrachave > termo). Continuando, em vez de usar "descontroladamente", poderíamos trocar por "sem controle". Em vez de precisarmos aprender a palavra grega "hidrofobia", poderíamos usar simplesmente "medo d'água" e também usar "ele tem medo d'água" em vez de "ele é hidrofóbico". Viu quanta palavra já economizamos?
No tupi, por ter menos palavras únicas pra conceitos diferentes, é comum juntar duas ou mais palavras pra formar uma nova: arasy é uma palavra formada de ara "dia" + sy "mãe, origem". Na nossa língua, não é preciso usar duas palavras, pois já temos "sol", e também não trocaríamos uma palavra simples por duas ou três: "mãe do dia". Ao contrário das palavras gigantes, querer simplificar e separar demais pode ser tão prejudicial quanto juntar palavras.

Até aqui, estou com mais dúvidas que respostas sobre como melhorar o vocabulário pra colocar na minha língua construída, porque não sei direito qual vai ser a consequência de usar mais um tipo ou outro. O que eu sei é que "precisávamos" já está sendo rearranjado como "nós precisava" na língua falada. Caberia ainda falar do "héchitégue" nesse post, mas vou deixar pra próxima.

Enquanto isso, vou textando e testando...

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vê o meu lado

Boa tarde,

No momento estou ocupado trabalhando no meu TCC do curso de música e também no vocabulário brasileiro  através da pesquisa da origem das palavras em português. Cada vez que vou garimpando entre as muitas palavras do nosso idioma, vou descobrindo muita criatividade na evolução das palavras e consigo perceber relações que se escondem atrás de uma letrinha diferente aqui, outra ali... Fico muito tentado a retraduzir tudo para uma linguagem bem acessível, mas não posso exagerar.

Ó uma criativa aqui: freguês. No dicionário Michaelis consta que vem do latim FILIV ECCLESIAE, que seria algo como "filho da igreja".

A palavra latina MACVLA deu origem a mágoa, malha e mancha, e ainda não satisfeitos, pegamos emprestado a palavra original mácula mais uma vez!

A descoberta mais recente foi quando eu estava separando os 're-' de algumas palavras e achei relato. Fiquei pensando se tinha alguma palavra já relacionada com lato. O dicionário me deu duas opções: lado e lato. Quando fui ver, realmente lado vem de LATV (esse é o motivo por que temos hoje lateral e não laderal). Agora faz sentido pra mim quando alguém diz: precisamos ouvir também o lado dele (que é então um "re lado" quando ele começa a contar de novo a história, mas agora na versão, ou "lado", dele).

Bem, espero que tenha curtido essas curiosidades. Se você já se surpreendeu quando descobriu o significado ou origem de uma palavra, compartilhe essa experiência aqui no blog.

Até mais.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

7 traços da fala que não fazem diferença

Bom dia,

Meme com cara de tacho
(puxado de images.google.com)
Imagine que você tá numa classe de idiomas. O professor começa a aula e pede para você traduzir a palavra que ele vai dizer. Você traduz normalmente, mas ele responde: "Não. Não é ... . É ..." e você fica com aquela cara: "...mas não foi isso que eu acabei de dizer?"

Você já passou por essa situação? O nosso ouvido está acostumado a diferenciar certos tipos de sons e ignorar outros, de acordo com o significado que eles podem ter na nossa língua materna. Quando começamos a aprender um novo idioma, muitas vezes não percebemos que é um sistema diferente de sons, de letras, de forma de pensar. Algumas coisas não fazem diferença no nosso ouvido simplesmente porque até agora ele não precisou diferenciar.

No casos dos brasileiros, aqui estão alguns traços da fala que nós normalmente não diferenciamos:

1. Comprimento da vogal
Em algumas línguas, como finlandês e latim, e em menor escala em alemão e inglês, a duração de tempo para produzir um som de vogal faz com que elas possam significar coisas diferentes. É como falar a vogal duas vezes, sendo geralmente a primeira mais acentuada. Em inglês, sheep "shíip" /'ʃiːp/ e ship /'ʃɪp/ se diferenciam pela duração da vogal, mas também pelo segundo ter som mais parecido com o nosso Ê (mas não chega a ser igual).

2. Comprimento da consoante
Essa é principalmente para os estudantes de italiano. Sabe aquelas letras duplas que vários brasileiros têm no seu sobrenome (se for de origem italiana)? Em italiano, a pronúncia é como duas consoantes seguidas, mas a primeira fica "trancada" antes de sair a próxima (parecido como quando dizemos "celular" rápido: os dois L ficam grudados). Como exemplo, compare pala /'pala/ ("pá") e palla /'pal.la/ ("bola").

3. Aspiração
Alemão e coreano, entre outros idiomas, dintinguem entre a consoante simples e a que tem como um "sopro" junto, como um H inglês saindo logo depois que a consoante é falada. Assim, nosso P pode ser percebido como um B para eles por faltar esse sopro extra, e no sentido oposto, o B deles pode parecer um P pra nós, especialmente no início da palavra ou no final, pois nesses idiomas, é mais fácil diferenciar P'HÊ de PÊ do que PÊ e BÊ.

4. Consoante no final da palavra
Isso não acontece com todas, mas principalmente com som de P, T e K e também com B, D e G porque elas são raras no final de palavras em português. Não sabemos direito como lidar com elas: às vezes sai um som de "i" no final junto se pensamos que a palavra está em inglês, ou simplesmente cortamos se achamos que é uma palavra francesa, ou ainda nos inclinamos para uma das duas formas independente do idioma. Assim, é possível ouvir a palavra em inglês card falada aqui como "cárdi" ou "car". Na minha opinião, seria mais fácil pra alguém entender você se sobrar pronúncia do que se faltar letra no final.

5. Som de S ou Z na posição final
Pra nós, não faz diferença falar "lessma" ou "lezzma", exceto que a primeira versão fica forçada. Entre "passto" ou "pazzto", soa mais natural o primeiro. Isso acontece porque a "voz" so som (experimente fazer SSSSSSS e depois ZZZZZZ: só com o segundo você pode  cantar uma melodia junto) se adapta pra voz da consoante que vai depois: M tem "voz", mas T não. Em inglês, close "clouzz" /kloʊz/ quer dizer "fechar", mas close "clouss" /kloʊs/ quer dizer "perto". Brasileiros são logo reconhecidos por falantes nativos do inglês ao dizer small como "izzmóu" em vez de "ssmóull". A tudo isso ainda se acrescenta as (não-)diferenças entre S e Z nos sotaques do Brasil.

6. Som de M ou N na posição final
Parecido com o ponto de antes, não faz diferença pra nós se a palavra "campo" estiver escrita como "canpo", pois o resultado na pronúncia é só um A mais nasal. Em francês, isso acontece bastante também, mas não em línguas como inglês e espanhol, onde os M e N finais aparecem bem, ainda mais quando a próxima palavra começa com vogal. Para um estrangeiro que diferencia M e N no final da palavra, parece que nós estamos sempre usando um som de NG final do inglês, ou eles nem ouvem no caso de não conseguirem diferenciar nossas vogais nasais das outras (experimente perguntar pra um americano se ele diferencia "com licença" de "co licêça").

7. Tom nas sílabas
Línguas asiáticas, como o mandarim, e muitas africanas, entre outras, diferenciam padrões de entonação nas sílabas de uma palavra, que podem significar palavras totalmente diferentes apenas pelo tom usado. Isso é bem diferente do nosso tipo de entonação em frases para diferenciar uma pergunta de uma afirmação. Em sueco, você pode usar a palavra anden para dizer "o pato" se o tom da primeira sílaba for mais alto que a da segunda ([ˈa᷇ndɛ̀n]), ou para dizer "o espírito" se o tom da segunda for mais alto que a da primeira ([ˈa᷆ndɛ̂n]). Note que a sílaba tônica é a primeira nos dois casos.

Espero ter ajudado você a pensar um pouco sobre a percepção no aprendizado de outras línguas. Ainda poderiam ser listados outros traços que são distintivos apenas em parte. Se você já teve dificuldade em diferenciar alguma palavra em outra língua ou começou a percebê-las a partir deste blog, compartilhe sua experiência com a gente.

Atenciosamente.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Minhas amigas e meus amigos

Olá leitor(a) do blog Karta Sosial,

O post de hoje vai tratar dos gêneros. Pra começar, sugiro que você assista este vídeo do pronunciamento que nossa presidenta fez em setembro sobre a redução das tarifas para 2013. Repare em como ela se dirige aos ouvintes e repare também em outros detalhes de gênero através do discurso.


A língua portuguesa, assim como outras derivadas do latim, tem distinção entre gênero masculino e feminino. Esse gênero não faz referência apenas ao sexo biológico, mas também ajuda a distinguir palavras num nível puramente gramatical, como o corte e a corte.
Assim como o sistema de gêneros oferece vantagens, ele também sofre com algumas incapacidades:
- Inclusão dos dois gêneros de forma equilibrada no plural.
- Referências com gênero indefinido ou que se aplica tanto ao masculino como feminino.
- Referências a seres com sexo biológico não perceptível ou inexistente, como muitos animais, seres infantis e divinos.
Sobra para o gênero masculino abarcar algumas dessas funções ou então se toma alguma solução diferente para tentar amenizar o problema.

Como visto no vídeo, uma solução para a inclusão dos gêneros é sempre falar duas vezes a mesma coisa, uma no feminino e outra no masculino (ou vice-versa): minhas amigas e meus amigos... Os pontos negativos aqui é que aumenta a quantidade de palavras e ainda pessoas podem reclamar da ordem em que elas aparecem.

Outra solução, até bem padronizada no Brasil em documentos, é colocar entre parênteses o final feminino junto com a palavra no masculino: o(a)s instrutore(a)s do(a)s aluno(a)s... Não deixa de ser estranho, pois subordina o feminino no masculino, além de "sujar" o texto com tantos parênteses. Existe ainda aquele velho problema dos anúncios de emprego, onde o empregador não quer especificar o gênero, mas é obrigado a fazer isso por falta de opção, às vezes fazendo prejuízo das classes de trabalho: precisa-se de operador de caixa (nenhuma mulher poderia se oferecer como candidata a este serviço?); Estamos recrutando costureiras (um homem seria incapaz de realizar a mesma função?).

Há uma tendência moderna entre pessoas que defendem a igualdade de gêneros em usar símbolos especiais (com pronúncias diferentes também) no lugar dos finais tradicionais: @ (entre -o e -a, com pronúncia fraca de "ó" /ɔ/) e também æ (entre -a e -e, com pronúncia de "é" /ɛ/). Assim, se usa frases como @s instrutoræs d@s alun@s... Apesar de ser mais igualitária, eu acho essa solução particularmente feia, tanto do ponto de vista da tipologia, quanto da dificuldade da pronúncia aberta fraca, e do próprio símbolo @ que ainda prioriza o "a" no centro e conflita com códigos de computador, como emails. Ainda assim, fico feliz que tem gente preocupada em tornar o discurso mais justo no tratamento das pessoas, sem perder as vantagens do sistema de gêneros e a identidade que traz pro nosso idioma.

Ao invés de incluir, outros idiomas têm preferido através da história excluir seu sistema de gêneros em favor de um discurso mais neutro. É o caso do inglês, onde apenas alguns pronomes devem indicar o gênero biológico (he, she, it), e apenas algumas palavras têm formas diferentes entre feminino e masculino (man/woman, rooster/hem, ox/cow, actor/actress, policeman/policewoman, entre outras). Até mesmo nesses casos, atualmente se tem esforços para substituí-las por termos comuns, como o they singular e o police officer.

Agora vou mostrar a minha proposta inclusiva. Já estou usando na língua que estou construíndo para os brasileiros (se quiser, pode dar uma olhada em Braziliaŋ), mas caso as pessoas não o aceitem por completo, pelo menos incorporar o seu sistema de gêneros no português já seria um alívio, perto da iminente "ruína tipográfica politicamente correta" do nosso século.
Como já temos o final -o relacionado com o masculino e -a com o feminino, por que não designar -e para um novo gênero que possa servir tanto como um gênero indefinido no singular, como um gênro comum ou inclusivo no plural? Parece estranho? Então compare a simplicidade que este terceiro gênero traz às frases:

PT-Br com 2 gêneros: Brasileiras e brasileiros, minhas amigas e meus amigos...
PT-Br com 3 gêneros: Brasileires, mins amigues...
Braziliaŋ (BZ): Brazileri, miŋs amigi...

PT-Br com 2 gêneros: O(a)s instrutore(a)s do(a)s aluno(a)s...
PT-Br com 2 gêneros: @s instrutoræs d@s alun@s...
PT-Br com 3 gêneros: Es instrutores des alunes... (o masculino seria instrutoros)
BZ: Es iŋstruedori des aluni...

PT-Br com 2 gêneros: Procura-se cozinheiro (como está hoje, não fica explícito se o empregador aceita mulheres)
PT-Br com 3 gêneros: Procura-se cozinheire (se aplica tanto ao masculino quanto ao feminino. Se aparecesse procura-se cozinheiro, já se saberia que se trata de um cargo apenas para homens naquele momento)
BZ: Si prokura koziŋeri

Se você conhece alguém que defenda a igualdade de gêneros, mas usa aqueles símbolos estranhos na falta de opção melhor, convide "ilo" (ele ou ela) para ler meu blog e comentar. Você mesmo pode colocar seus sentimentos e ideias sobre isso aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Maciota, supinta, xongas!

Hoje eu tava tomando café, vendo o programa da Ana Maria Braga, e passou essa reportagem sobre palavras que não são mais usadas (ou um sentido delas). Assista esse divertido vídeo no link: Mais você - 13/02/2013 - Maciota, supinta, xongas! Será que alguém ainda usa essas palavras?

Não sei se é porque eu estou ficando velho, mas algumas das palavras eu reconheci, como maciota, coqueluche, pinóia e dedéu. Só que você, depois de ver o mesmo vídeo, pode ter reconhecido outras que eu não consegui. Acredito que o uso vai mudando, mas não em todas as regiões do Brasil ao mesmo tempo. Pode ser que algumas já sumiram onde foi feita a reportagem mas ainda são populares em outra parte do país (mesmo na reportagem, alguns acertaram o significado, mostrando que, usadas ou não, elas ainda são lembradas - pelo menos por enquanto).

O post de hoje foi mais pra descontrair, mas tambem quero porpor: participe colocando nos comentários as palavras que você lembrou, e também aquelas que não apareceram e que você também não ouve mais falar hoje em dia. Vou "carpir o côco"!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pra que acentuar? - Parte 2

...Continando.

No tópico de antes eu não cheguei a falar muito sobre a utilidade do acento.
Ele pode ser usado para indicar com mais precisão a qualidade de som de uma letra, marcar a sílaba mais forte de uma palavra, diferenciar entre duas palavras curtas, indicar o tom da sílaba (em transcrições do escrito chinês para o alfabeto latino) e às vezes até para indicar a própria existência de uma vogal específica ou a falta de vogal em escritos onde as vogais são omitidas (por exemplo, árabe e hebreu).

E em português, como funciona?
O acento marca ao mesmo tempo a sílaba mais forte e a qualidade da vogal. Temos dois acentos principais que definem altura e acento silábico: o acento agudo (´), que indica a pronúncia mais aberta em E, A, O (representando em AFI, é = /ɛ/, á = /a/, ó = /ɔ/), e o acento circunflexo (^), famoso "chapeuzinho", indicando a pronúncia mais fechada em E, A, O (ê = /e/, â = /ə/, ô = /o/). Note que I e U só recebem acento agudo, pois não têm qualidade vocal alternativa. Assim, para marcar uma sílaba mais forte numa posição não habitual, é preciso também escolher o acento para indicar a pronúncia da vogal. Por isso é que no Brasil escrevemos prêmio e em Portugal se escreve prémio (se bem que no Rio está crescendo uma tendência de pronúncia igual à que já existe em Portugal).
Pode ser dito que, onde a sílaba forte já está numa posição normal, o acento marca apenas a qualidade da vogal. Isso era mais comum antes das últimas reformas ortográficas: êle, rêde, côro, pára, mas tem se tornado cada vez menos necessário, pois em várias palavras a altura (pronúncia com a boca mais aberta ou mais fechada) é variável. Veja: gosto (ô, nome), gosto (ó, verbo), tomate (ó, ô ou ú, dependendo do sotaque).

Saindo um pouco do oficial, além de eu já ter visto na internet comentários escritos sem nenhum acento, vi também pessoas usando o acento apenas para marcar qualidade de vogal, sendo que em alguns casos a sílaba mais forte deveria ser em outra que não está acentuada, causando confusão. Outro caso não incomum é o uso do 'h' pra acentuar (e às vezes junto com o acento pra distinguir a qualidade). Alguns exemplos: véla, quérida, éh, Júh, sózinho, e mais.

Ainda temos outros acentos. O til (~) é usado apenas sobre A e O pra marcar vogal nasal. Pra indicar sílaba forte, não é muito preciso. Repare: maçã, cãozinho, coração, órgão. Temos também o acento grave (`), conhecido popularmente como "crase" no Brasil porque só aparece quando a preposição A (que quer dizer "(direção) para", "lugar") se junta com o artigo feminino A (pode aparecer também, no português europeu, pra indicar a qualidade da vogal sem indicar sílaba forte, como em prègar). Por fim, o trema (¨), eliminado em Portugal antes do que aqui, servia pra mostrar que o U em QU e GU era pra ser pronunciado (rápido, como W em inglês), mas ainda pode aparecer em nomes próprios, principalmente de origem alemã, como em Schütz. Sem o trema, várias palavras vão se mantendo apenas enquanto a memória coletiva durar, pois na palavra linguiça, não está expresso se GUI é /guj/, /gwi/ ou /gi/.

Bem, já falei bastante. Se você conhece o uso dos acentos em outras línguas, como em italiano e francês, sinta-se livre pra comentar e mostrar algum ponto que chamou sua atenção. Até mais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pra que acentuar? - Parte 1

Oi.

Vejo muitos comentários na internet onde as pessoas simplesmente digitam sem usar nada de acento. Será que elas não sabem quando usá-lo? Têm preguiça? Ou é desconfortável mesmo?

A gente sabe que a grande maioria dos produtos tecnológicos do nosso país são desenvolvidos por empresas estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos ou alinhadas com esse mercado. Por o inglês praticamente não ter uso de acentos (chamados tecnicamente de diacríticos), as soluções para acentuação não têm sido das mais animadoras. Nos celulares, aqueles com o tecladinho que você tem que apertar 3 vezes pra ter a letra C, não consigo nem colocar um til ou um chapeuzinho. Até mesmo no iPhone, tão globalizado, você tem que segurar a letra por 1 segundo e arrastar até o acento desejado dentre umas 5 opções. Se tiver sorte, não precisará esperar outros 3 segundos por ter soltado antes de chegar no acento certo... Tudo isso enquanto alguém escrevendo em inglês já digitou umas 12 letras ou mais. A propósito, o blog Tap Tap Tap, de onde eu tirei essa imagem, contém 10 dicas interessantes de funções que talvez você nem saiba que o iPhone tinha.

No teclado do computador, a coisa é menos tensa, mas não menos estranha. Pra colocar acento, você tem que digitá-lo ANTES de digitar a letra em si. Você já viu alguém escrever à mão o acento antes da letra?? O mais natural é pensarmos primeiro na letra para depois pensar qual será o acento que deve ir sobre ela. Assim, muitos acabam desistindo de acentuar palavras, sendo prontamente tachados de ignorantes e preguiçosos. Por causa desse desconforto, alguns até nutrem uma antipatia pelos acentos.

Gostaria de expressar aqui que os acentos têm sua importância para os idiomas que os usam, mas até mesmo as marcas de produtos com público mais abrangente carecem da experiência diária de lidar com eles, para realmente ter noção de como elas é que estão ignorando a nossa dificuldade de acentuar com lógica e agilidade.

Agora, olhando de outro ângulo, nossos acentos são bem simples se comparados com marcas adicionais em outros escritos, como hebreu, hindi e as extensas combinações de traços do mandarim. Já parou pra imaginar os obstáculos tecnológicos que eles têm que atravessar pra digitar corretamente um texto? Nós poderíamos nos esforçar um pouquinho mais pra adicionar um mero tracinho, diante desse monumento tipográfico (talvez seria mais rápido pra eles, só que simplista demais, desenhar um bico e uma crista).

Poxa... Tem tanta coisa pra dizer sobre acentos que vou deixar pra continuar essa conversa em outro post.
Ate mais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

xxxxx! Silêncio!

O título deste post mostra uma forma de escrever o som que fazemos pra alguém parar de fazer barulho. Forma, alías, nada comum, apesar de nós termos esse como um dos sons na letra X em português.

Na verdade, eu queria chamar a atenção para como o nosso idioma e outros representam esse som com letras.

Pra começar, esse som tem um símbolo próprio na Associação Fonética Internacional: ʃ (normalmente entre barras // ou entre colchetes []. Veja informações sobre esse fonema aqui). Esse símbolo é usado para indicar a pronúncia em vários dicionários pelo mundo todo, visto que é um som relativamente comum. Em muitas línguas, surgiu ao longo da história como uma modificação de algum outro som e, portanto, aparece com as mais variadas grafias. Em latim, ancestral do português, por exemplo, esse som não existe, sendo que a letra X era sempre usada para representar /ks/. Porém, na região ibérica, a letra X representou /ʃ/ historicamente (não sei bem qual a origem dessa tradição. Se alguém souber, pode colocar nos comentários). Em espanhol, agora X representa mais /(k)s/ e, onde representava o som mais gutural que veio depois do /ʃ/, foi quase totalmente substituído por J. Línguas indígenas da América ainda usam X semelhantemente em sua ortografia por influência dos colonizadores espanhóis e portugueses (algumas nem têm o som /ʃ/, como Xavante. Para mais informações, ver SAPhon).

Em português do Brasil, X representa quatro sons, como: /ʃ/ em mexe, /ks/ em fixo, /s/ em máximo e /z/ em exato. Além disso, a dupla CH também representa, até mais estavelmente, o som /ʃ/, exceto nas regiões de fronteira com países que falam espanhol, onde pode ser pronunciado /tʃ/ em algumas palavras de uso comum entre as duas línguas.
Na região norte de Portugal, existe uma fina diferenciação de som entre X, CH, C, Ç, Z, S, SS. O som /ʃ/ é mais estável apenas em X, mas ainda assim divide espaço com a pronúncia /ks/ e /z/.

Apesar de nós já estarmos bem acostumados com o "X de Xuxa", seu uso para representar /ʃ/ não é tão comum entre as línguas do mundo. Basta rolar a tabela no link do Wikipedia sobre esse som, em inglês, pra ver que outras letras são mais usadas. A seguir, veja quais as formas de grafia usadas por três línguas.

Italiano: Usa primariamente a combinação SC antes de E e I, mas SCI antes de A, O e U, por causa das duas pronúncias da letra C.

Inglês: Parece estável em SH, mas também surge em palavras com CH de origem francesa, em SI e TI + vogal, e também quando o som de S se funde com o som de Y, como em yes ou you (e esse mesmo som de "i rápido" esté em SI e TI).

Alemão: O som /ʃ/ (um pouquinho mais "escuro" que o nosso) recebe uma grafia estável, só que com três letras: SCH. Contudo, a letra S no início e antes de consoante também pode representar esse som. O curioso é que existe a escrita CH que tem um som característico, mas a letra C sozinha praticamente não é usada, e quando é, tem a pronúncia /ts/, igual à letra Z. Schnell poderia ser facilmente escrito cnell, mas, não sou eu quem vai decidir isso pra eles...

Lojban: Caracterizada pela lógica e pelo mínimo de ambiguidade, essa língua construída captou o potencial da letra C e a usou convenientemente para representar /ʃ/, fazendo par com J (mesmo som do nosso, como em janela, representado em AFI por /ʒ/).

Espero ter ajudado a refletir um pouco mais sobre as formas de representar um som na escrita, nos idiomas diferentes, com pensamentos diferentes. Tcau!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O que é que a baiana tem?

Fiquei pensando em trazer algo que lembrasse esse clima de férias, praia, turistas... e acabei chegando neste vídeo da antiga e ilustre Carmen Miranda. Apesar de nascida na terrinha, ela botou a alegria do povo brasileiro no mapa cultural dos países mais poderosos da época, em especial dos Estados Unidos. Conheça mais da vida dessa cantora e também atriz no belo site www.carmenmiranda.com.br.



O que é que a baiana tem? 
O que é que a baiana tem?
Tem torço de seda, tem! Tem brinco de ouro, tem! 
Corrente de ouro, tem! Tem pano-da-Costa, tem! 
Tem bata rendada, tem! Pulseira de ouro, tem! 
Tem saia engomada, tem! Sandália enfeitada, tem! 
Tem graça como ninguém!
...

Na primeira parte, a cantora vai falando das coisas que a baiana tem. Em geral são partes da roupa que ela tá usando, objetos... mas por último ela cita uma característica da personalidade, do jeito.
No Brasil, temos algumas construções de frase peculiares que priorizam um substantivo, às vezes com verbo ou preposição de apoio, em vez de um adjetivo ou verbo, e também um subtantivo ou adjetivo no lugar de um advérbio. Isso evita a derivação de palavras mais simples em versões complicadas e arcaicas.
Na frase "Tem graça...", uma construção parecida poderia ser "É graciosa...", mas na segunda é preciso usar uma forma derivada, que muitas vezes mantém características mais próximas do latim que da linguagem que usamos normalmente, além, é claro, de quebrar a sequência da letra com os muitos "tens".

Os exemplos abaixo mostram a diferença de construção, comparando com o idioma do país em que Carmen teve mais sucesso (e mostrando uma versão em português "ao pé da letra"):

Tem medo de barata?
Are you afraid of roachs? (É você assustado de baratas?)

Mãe, tô com fome!
Mom, I'm hungry! (Mãe, eu tô faminto!)

Na verdade/real, eu não vou lá amanhã.
Actually, I'm not going there tomorrow. (Atualmente, eu não tô indo lá amanhã)

Deu um salto, o preço do arroz.
The price of rice has jumped. (O preço do arroz tem pulado)

Ela saiu do trabalho bem depressa/devagar. (< Por que junto ?????)
She left work very quickly/slowly. (Ela deixou trabalho muito rapidamente/lentamente)

É interessante notar que as preposições dão informação parecida com os "casos" de outras línguas, como latim, russo e alemão. Ou seja, nossa língua também tem um sistema de casos, não colados no final da palavra, mas às vezes colados no início de outras palavras de função, como artigos e pronomes (talvez isso dê um alívio nas pessoas que estão aprendendo alguma dessas línguas). No "caso" do Brasil, esse raciocínio é usado para substituir palavras mais arcaicas ou muito grandes, sem perder necessariamente a riqueza de significado. 

Manual - De mão
Pedal - De pé
Dominical - De domingo
Estival - De verão
Pluvial - De chuva
Celeste - Do céu
Respeitosamente - Com respeito
Desrespeitosamente - Sem respeito
Horizontalmente - De lado, deitado...
Verticalmente - Em pé, pra cima...
Certamente - Com certeza
Pacificamente - Em paz
Fielmente - Com fé; igual
bondoso, honesto - De bem
Tranquilamente, facilmente - De boa
Brigado, ressentido - De mal
Depressivo, triste - Na fossa (ou deprê)
Gracioso, engraçado - Com graça
Entediante - Sem graça

Bem, se você conhece outras expressões como estas, pode deixar nos comentários.
Tô de saída!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

É tão difícil escrever como se fala...

Oi pessoal,
 
Muitas pessoas reclamam quando vão aprender uma nova língua, dizendo que a pronúncia é muito diferente da escrita. Isso acontece principalmente com a língua inglesa, onde, por exemplo, a letra u pode representar um monte de vogais diferentes e ch pode ser nosso tch/ti, ch ou k.
O idioma mais usado no mundo atualmente mantém sua escrita baseada na tradição, ou seja, num ponto da história onde a escrita se estabilizou (se bem que para cada palavra esse ponto pode ser diferente. Assim, a escrita "etimológica" pode ser considerada arbitrária também). O problema é que a pronúncia mudou bastante até hoje e continua mudando pra direções diferentes em cada região do mundo onde o idioma é usado. Nesse sentido, as palavras em inglês prescrevem significado muito mais do que pronúncia. Pra ter sucesso na fala, é preciso então confiar na leitura da palavra inteira e na ordem da frase, além de ter um certo conhecimento de outras línguas, como o francês, para as pronúncias mais imprevisíveis. Escrever segundo a origem ou o som atual é uma escolha que cada povo faz, com suas vantagens e desvantagens.
 
Aqui no Brasil, posso dizer que a gente se inclina mais pra escrita baseada na fala, e, cada vez mais entre os mais jovens, na MINHA fala. Eles querem se expressar, comentar, compartilhar, curtir, mas não param pra perceber se o outro entende o que estão dizendo.
Já li comentários na internet sem nenhum acento e pontuação, nem pra diferenciar é de e ou uma pergunta de uma resposta. Em outros casos, o acento deixa de ser usado pra indicar a sílaba mais forte e indica só o tipo de vogal (Ex.: téla, sózinho). Mais extremo, já vi frases viradas num palavrão, literalmente: táquipariu.
Eu penso que se você quiser viver em sociedade, tem que entrar num acordo de comunicação. Não dá pra querer dizer tudo o que quer, como quer, na hora e ordem que quer, com a letra que quer... Tem que se adaptar à situação, ter um limite entre o que facilita a escrita (mas fica muito próprio) e o que é tradicional só por ser.
 
Proponho aqui uma experiência: veja a frase a seguir:
 
Se eu gosto das casas, das ruas, mas não das árvores, o gosto é meu.
 
Quem escreve em português, tanto em Portugal, Angola e nas regiões do Brasil, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em Manaus, vai entender o que está escrito aqui. Só que a pronúncia do S nessa frase é bem variada dependendo do sotaque:
 
Se eu fosse escrever, falando rápido como um carioca, ficaria assim (desculpe cariocas, essa é a minha percepção como catarinense vendo Salve Jorge): Si eu góh dax cázah, dáih húah, máih náũ daz áhvuriix, u gôixt'é méo. [falar X como CH brasileiro e H como CH alemão]
 
Já no oeste catarinense, poderia ser desse jeito: Se eu gósto das cázaz, daz rúaz, má nãu daz árvores, o gôstu'é meu. [O e E finais são ô e ê fracos, o R é como na Itália].

Em Minas, seria mais ou menos assim: S'ô gós dás caz, daz hua, ma nũ dáz arv, u gôst'é meu, uai. [S como SS e Z como Z puro]

A gente não pensa nos detalhes de pronúncia da letra S quando fala, mas na verdade a realização dela é bem complexa. Você viu que na versão carioca a palavra 'das' aparece como 'dax', 'da(i)h' e 'daz'? Mas as três não significam a mesma coisa? E no caso de 'gosto'? Aparece em Minas o 'gós' e o 'gôs(t)', mas os dois têm mesmo sentido.
Pois bem, parece mais fácil escrever como se fala, mas no final a gente precisa aprender um monte de regras pra mudar a pronúncia de acordo com outros sons que estão perto e também aprender várias palavras que no fundo querem dizer a mesma coisa... E ainda assim pode passar uns trinta anos e tudo mudar de novo!

No final das contas, o que é mais vantajoso? A escrita prescritiva (menos precisa em pronúncia, porém mais funcional) ou a escrita fonética (mais precisa em som, porém mais separatista, com mais vocabulário redundante). Pra mim, é mais vantajoso se for mais eficiente, ou seja, em pontos onde há muita variação sem perder a essência, deve ser mais prescritiva (Ex.: O plural com -s, pelo menos em palavras de função); em outros, atualizações fonéticas seriam mais proveitosas (Ex.: falando de uma língua "brasileira", é bem geral que as pessoas não pronunciam os R finais de verbos. Uma língua escrita língua brasileira teria mesmo que cortá-lo).

É isso por hoje. Quer fazer sua versão sobre a frase acima? Não deixa de compartilhar nos comentários, dizendo de que região é. Tchau!